Você que está fazendo orçamentos de energia solar, já se perguntou por que as propostas variam tanto? Quantidade de placas, potência e, principalmente, a geração de energia prometida... parece não haver um padrão, certo?
Hoje vamos esclarescer o que está por trás dessas diferenças e como você pode se proteger de propostas irreais!
O número ideal de placas solares para o seu projeto, é definido a partir do seu consumo de energia (kWh) e da estimativa de geração das placas solares no seu telhado ou terreno. O problema, é que essa estimativa de geração, depende de vários fatores técnicos que podem ser ajustados conforme critérios do projetista ou empresa proponente, ou seja:
"Os dados podem ser apresentados de forma excessivamente otimista para tornar uma proposta comercialmente mais atraente, sacrificando o seu resultado real a longo prazo."
O que é considerado na estimativa de geração de energia?
De forma simplificada e para facilitar o entendimento, apresentamos abaixo os principais fatores considerados na hora de estimar a geração de energia de uma placa ou sistema fotovoltaico:
Irradiação solar: quantidade de energia do sol que chega à Terra e poderá ser convertida em energia elétrica pelas placas. Existem várias bases de dados climáticos medidos ao longo de vários anos em vários locais, cada base de dados pode apresentar valores diferentes para um mesmo local.
Posição das placas em relação ao sol: sabe aquela parede da sua casa voltada ao norte, que sempre fica mais quente por que pega sol o dia todo? O mesmo acontece com as placas solares, a direção e a inclinação delas faz com que recebam sol mais direto ou menos direto, impactando na quantidade de energia gerada.
Perdas: Todo sistema de energia solar é impactado por perdas. Imagine que o seu sistema é um carro: o fabricante diz que ele faz 15 km/l, mas, na vida real, com trânsito e subidas, o consumo pode ser diferente. Com a energia solar, acontece algo parecido. As principais perdas que diminuem a geração: temperatura ambiente elevada, sujeira nos módulos, sombras - causadas por objetos, edificações, vegetação ou montanhas próximas, desgaste natural dos equipamentos, etc.
Abaixo, preparamos uma tabela relacionando os principais fatores, como eles são sensíveis aos critérios de quem está realizando os cálculos, e de que forma eles podem e costumam ser "otimizados" para "brilhar" os olhos dos consumidores.
Sistema fotovoltaico instalado em torre de condomínio: placas com pouca inclicação e presença de sombreamento da caixa d'água. Fonte: Arquivo institucional Projamp.
Vamos para um exemplo prático?
Para entender como uma proposta pode parecer mais atrativa financeiramente à custa do seu desempenho futuro, vamos comparar dois critérios de dimensionamento para o mesmo objetivo: suprir um consumo de 700 kWh/mês. Nesta análise, observe como a consideração das perdas elétricas e ambientais muda completamente o número de placas:
Cenário 1: Fatores ajustados para resultar em uma estimativa mais otimista
Nesta abordagem, as variáveis são ajustadas para um cenário de laboratório, ignorando os obstáculos do dia a dia:
Irradiação solar: O projetista escolhe utilizar a base de dados Meteonorm 8.2, na qual o índice de irradiação diária média é 4,57 kWh/m² (GHI).
Perdas por Sujeira e sombreamento: Assume-se que as placas estarão sempre perfeitamente limpas e por isso é considerado 0% de perdas por sujidade. Existe um prédio no outro lado da rua que causa sombras a partir de certo horário, porém o projetista decide não avaliar o impacto desse prédio e assume que ele não causará nenhuma perda.
Placas de 570W.
De acordo com as premissas adotadas pelo projetista nesse cenário, o número de placas necessárias para gerar 700kWh/mês é: 10 placas de 570W.
Cenário 2: Fatores ajustados para resultar em uma estimativa mais realista.
Nesta abordagem, as variáveis são ajustadas para um cenário que considera os obstáculos da vida real e uma maior margem de segurança para o cliente:
Irradiação solar: O projetista escolhe utilizar a base de dados brasileira CRESESB, na qual o índice de irradiação diária média é 3,79 kWh/m² (GHI).
Perdas por Sujeira e sombreamento: Assume-se que as placas serão limpas apenas 1 vez por ano, e por isso o projetista assume 5% de perdas por sujidade. Dessa vez o projetista analisa o impacto da sombra utilizando um software 3D que resulta na perca de mais 2,59%.
Placas de 570W.
De acordo com as premissas adotadas pelo projetista nesse outro cenário, o número de placas necessárias para gerar 700kWh/mês é: 13 placas de 570W.
Conclusão
O primeiro cenário de cálculo de número de placas resulta em um menor número de equipamentos, que por consequência torna a proposta mais "barata" e fácil de vender, sacrificando o sucesso do cliente com o projeto contratado.
O segundo cenário, considera a realidade das instalações de energia solar no Brasil afora, é transparente e honesto com o consumidor, que pode tomar uma decisão baseada em números realistas.
